24/04/13

4 Dicas de Escrita



Eu não sou o escritor que eu gostaria de ser e nem acho que vou chegar lá tão cedo. Ainda assim algumas pessoas me pedem por dicas e coisas desse tipo. A maior parte nem é tão mais nova do que eu, alguns tem a mesma idade e outros são mais velhos. Eu não tenho uma receita de bolo acerca de escrita e como as coisas deveriam ser feitas ou um daqueles textos longos sobre “Como ser um escritor”. Eu tenho apenas aquilo que me motiva como escritor e se isso ajudar alguma pessoa, valeu.

1 – Ser absurdamente obcecado e devoto. Eu sou da opinião de que a escrita é uma religião, uma coisa sagrada. A pessoa desejosa de se tornar um escritor deve mergulhar em tudo o que seus predecessores já fizeram, se interessar acerca de cada aspecto ou técnica que já existiu. Usá-las ou não é periférico. Um autor deve conhecer mais livros do que o leitor comum, acumular versos de memória, entender a função de cada coisa e nunca se dar por satisfeito. Você nunca irá conhecer demais. Por exemplo, se você quer escrever literatura juvenil, procure conhecer a história do gênero, quais foram os autores mais importantes e o motivo disso, leia, por exemplo, “A Ilha do Coral”  e busque compreender onde ele se encaixa no grande plano das coisas. E isso se aplica a tudo aquilo que você quiser na vida, desenhar, pintar, cantar. Seja obcecado.

2 – Saiba estabelecer um ponto de vista. Um problema que autores iniciantes demonstram é não ter um ponto de vista firme – e isso leva a flutuações bem irritantes. Escolha um ponto de vista e se atenha a ele. Claro que você pode tentar escrever Trainspotting um dia, mas mesmo nesse livro os milhares de pontos de vista são bem delineados. Acompanhe o seu personagem de perto, bem de perto.

3 – Encontre a sua própria voz. Isso não quer dizer que você deve fazer experimentos pós-modernos e coisas do tipo, isso morreu. O que eu digo é: Seja fiel a você mesmo. Não tente escrever Game of Thrones se você for muito bom em escrever coisas engraçadas. Ou o contrário. Descubra quais são seus pontos fortes e invista neles. Pode ser em descrever coisas, sentimentos, personagens. Até mesmo piadas de pum podem ser interessantes se você souber como fazê-las. Pelo menos foi isso o que eu aprendi lendo Artemis Fowl.

4 – Clichê: Leia. Muito. Demais. Um autor precisa de conteúdo para estofar aquilo que pretende colocar no papel. Por favor, por favor, por favor, não seja uma daquelas pessoas que visitam sites de citações na internet e usam pedaços randômicos de Shakespeare como epigrafes. Se você quer usar Shakespeare, Neil Gaiman ou Paulo Coelho, tudo bem, mas conheça aquilo. Cada autor lhe dará um novo ponto de vista acerca do mundo e de como pessoas diferentes vivem coisas diferentes. Isso é o milagre da ficção. Gostar de escrever num caderno ou blog não é garantia de que você tenha tudo pronto para colocar para fora, leia, observe e aprenda com aqueles que são melhores do que a gente. Por exemplo, se eu quisesse escrever uma história juvenil, eu procuraria “Mulherzinhas” de Alcott ou “O Apanhador no Campo de Centeio” de Salinger, eles estiveram por lá antes de mim, sabem das coisas.

5 - Não acredite muito em elogios de amigos ou comentários muito gentis. Seu trabalho nunca é perfeito e lindo e maravilhoso - independente de o quanto sua mãe argumentar o contrário. Tenha calma e paciência para receber críticas diferentes daquilo que você desejava. Guarde o que ouvir e use para melhorar. Nunca brigue ou xingue - isso é deselegante e você pode ser melhor do que isso. Aguente, coloque a toalha nas costas e vá desbravar a galáxia.

E por último: Crie suas próprias regras. Trabalhe muito e um dia você terá uma lista interna daquilo que funciona para você. Essas são algumas das coisas que funcionam para mim - eu tenho mais umas mil, mas é porque eu sou metódico nas minhas manias e regras. Então, é isso. Até mais.

29/01/13

Entrevista: Jemyle Jones


1 – Olá, é muito legal conversar com você hoje. Eu estava vagando pelo Youtube ontem e vi um post seu falando sobre suas canções, normalmente eu deixaria isso de lado, mas algo realmente chamou minha atenção, então eu fui adiante e achei aquela sua incrível música “Timeless Jones”. E o mais interessante foi o fato de que você dirigiu o clip. Você poderia falar um pouco sobre você para as pessoas daqui?

R - Primeiro de tudo eu gostaria de agradecer a você, Jim Anotsu, pela entrevista. Eu atendo pelo nome de “Jemyle Jones” (pronuncia-se JEM-MILE Jones). Sou um artista/cinegrafista independente e ocasionalmente ator e produtor do Queens, Nova York.

2 -  O que primeiramente chamou a minha atenção quando ouvi suas canções foi o fato de que suas letras eram complexas e você tem um flow muito pessoal – que me lembrou o Nas no início da carreira dele. Algo que se destaca – como um estrangeiro que escuta rap americano – é o fato de que muitos rappers geralmente rimam sobre o fato de quão bons eles são – e eu sei que ego é uma parte inerente da cultura do rap – mas o que gostaria de saber é o que te dá o click “eu quero falar sobre isso”? Eu vi em uma outra entrevista sua você dizendo que “quando eu me maturei para fora da mentalidade do gueto, eu queria fazer muito mais por mim mesmo”. O que você quis dizer com isso?

R:  Eu tomo isso como um elogio no aspecto lírico. Eu crio as minhas músicas em forma de histórias, mas mais poéticas no geral. Eu acredito que quaisquer seja a emoção que você sinta, você deveria expressá-las de alguma forma. Eu apenas tenho a tendência de fazer isso através da rima. A linha que você citou explica como eu amadureci como ser humano o que então me amadureceu como um artista também. Para ser completamente honesto, eu era um garoto que traficava drogas no Queens e que fazia rap porque o basquete não era mais uma opção. Basicamente a minha mentalidade era: “foda-se”. Eu estava pronto para qualquer coisa, em qualquer lugar e só queria curtir com pessoas na mesma luta. Em pouco tempo eu acordei para a realidade sentindo-me melhor do que nunca. Minha música será constantemente uma jornada de eu já estive na minha vida até onde estou e para onde eu estou indo. E dessa forma eu posso servir como uma planta inspiracional para aqueles que estão/estavam perdidos no mesmo plano mental.

3 - Aqui no Brasil é a primeira vez que o rap está chegando ao mainstream – especialmente por causa de um jovem rapper chamado Emicida que assim como você começou na internet e terminou tocando no Coachella. Eu vi que seus vídeos estão mais de dez mil visualizações e crescendo. Como você analisa isso para a cultura do rap, quando você pode colocar o seu trabalho online, independente de grandes empresas fonográficas ou grandes quantidades de dinheiro? E ainda falando sobre mídia online, você colocou o seu álbum “12” para download grátis, você acha que esse é o caminho para artistas independentes no futuro?

R: Emicida, sim. Ele é talentoso e pavimentou o caminho para os artistas no Brasil. Eu também estou na corrida para pavimentar o meu caminho de forma independente. As grandes empresas definitivamente são necessárias para distribuição e propaganda. Elas são capazes de pagar por grandes turnês, que é o que acredito que todos os artistas almejam em algum ponto de suas carreiras. Independência pode ser muito difícil quando não estão num selo indepente. Já que as grandes não mais lidam com desenvolvimento do artista; o novo caminho para artistas hoje é assinar com um selo independente e se desenvolver com eles (estilista, sessão de fotos, vídeos, etc) para gerar barulho através de blogs e mídia social. Isso chamaria a atenção de um selo maior para ou fazer uma parceria com o selo independente ou contratá-lo. Como um dos poucos artistas que não estão num selo independente, eu dirijo, gravo e edito meus próprios vídeos. A resposta ao meu trabalho me faz querer continuar melhorando os meus talentos. Eu coloquei uma tape online para download gratuito chamada “12: Twelve”. Lançar músicas de graça é de muita ajuda no processo de ser ouvido. É raro encontrar pessoas que queiram investir seu dinheiro em algo/alguém com quem não estejam familiarizadas. Eu espero que no futuro eu tenha mais ajuda para colocar meus trabalhos para fora com o selo independente que quer trabalhar comigo.

4 - Você vem de uma das maiores cidades do mundo e lar de muitos rappers como The Notorious B.I.G e Jay-Z. Seu vídeo para “They Don’t Know” nos mostra um pouco da sua visão acerca da cidade e a diversidade que existe aí. Quanto de Nova York, do Queens, você coloca na sua música?

R:  Nova York é definitivamente representada na minha música. Cada bairro dentro da cidade é diferente a sua própria maneira. Queens costuma ser mais tranquilo quando comparado com o resto e isso se expressa na minha aparência e música.


5 – Você poderia nos dizer quais são seus próximos planos, lançamentos ou o que vem para você agora?

R: Eu planejo trabalhar em mais visuais a serem lançado a partir do “12:Twelve”. Dirigir mais vídeos meus e de outros artistas. Trabalhar num curta-metragem. Também planejo lançar coisas novas ainda este ano. Por favor, fiquem ligados.

6 – Então eu vou terminar por aqui e deixar o espaço aberto para que você diga o que quiser, onde encontrar o seu trabalho e tudo mais. O espaço é seu. Obrigado por falar com a gente e eu desejo todo o sucesso e espero vê-lo aqui um dia.

R: Estou muito grato pelo apoio. Sintam-se livre para checar no youtube.com/jemylejones, twitter.com/jemylejones, e apoiar no facebook.com/jemylejones. Obrigado pelo seu tempo, eu que aprecio.




Jim Anotsu é autor de "Annabel & Sarah" e "A Morte é Legal" - que é um livro que tem rap no meio. Até mais e obrigado.

21/01/13

Music Monday

Já faz algum tempo que não temos o Music Monday, por isso hoje a gente decidiu mostrar que relembrar é viver e trouxemos a seção de volta e esperamos que ela esteja aqui nas demais semanas do ano. Ok? Então vamos lá.

1 - Vamos de "Isles and Glaciers". Para quem não sabe, essa é uma superband formada por membros das seguintes bandas:  Chiodos, Emarosa, Pierce the Veil, Cinematic Sunrise, The Receiving End of Sirens, Underminded,  The Sound of Animals Fighting e Boys Night Out. Liderada pelo Criag Owens, o problemático vocalista do Chiodos/Cinematic Sunrise/D.RU.G.S.





2 - A segunda banda de Hoje é o Japandroids e se você não ouviu falar deles no ano de 2012 é porque viajou para bem longe. O Japandroids veio do Canada e explodiu no ano passado com o lançamento de Celebration Rock. Um dos discos mais honestos dos últimos anos. É realmente legal e começa com fogos de artifício, bem, porque é um rock para celebrar. É um duo com muito poder de fogo.





3 - O terceiro lugar vai para Albert Hammond Jr. Membro do The Strokes que sai em trabalho solo e manda muito bem. O som pode lembrar a banda original, mas é menos pretensioso - Angles, alguém - e bem sincero que nos faz lembrar do indie de início dos anos 90 que influenciou Weezer na sua era Blue.






4 - O quarto lugar vai para Andrew Bird e Heretics. Eu estou ouvindo bastante esse disco nos últimos dias, preparação para assistir ao show dele no mês que vem em São Paulo, no Cine Jóia. Acho que vai ser bem legal e se você não conhece esse one-man-band, essa é a hora.





5 - E para terminar vem Tom Vek. Essa já é antiga, mas não deixa de ser legal e incrível. É interessante ver como o mundo do indie rock tem algumas pérolas espalhadas por aí. Acho que já dá pra terminar por aqui e  espero encontrar todo mundo por aqui semana que vem. E como diz o nome da música: 

"I Ain't Saying My Goodbyes"










17/01/13

Nós Estamos Aqui


Eu sempre gostei de livros sobre jovens. Deve ser por isso que escrevo sobre eles. Huck Finn, Holden, Werther, Scout e Caraway. Eu gosto de todos eles como se eu os conhecesse. Bem, por causa disso, com a ajuda da Srta Carol Christo, estamos organizando uma coletânea soobre o tema. Para quem quiser saber mais, aqui vai:


"A juventude sempre foi uma parte complicada da vida. E por esse motivo, sempre foi uma parte importante da literatura ocidental. As histórias sobre jovens e seus dramas estão entre nós desde Werther, Tom Sawyer ou nos filmes de Gus Van Sant. A coletânea Nós estamos aqui - histórias da juventude busca capturar o espírito de obras como O Apanhador no Campo de Centeio ou As Vantagens de ser Invisível. Abrindo a caixa dos dramas juvenis do século XXI, dos jovens que vivem por fora como um personagem de Sofia Coppola e por dentro como uma canção do Weezer. Queremos histórias sensíveis, capazes de capturar a essência dessa época da vida. Seus conflitos, anseios, expectativas e descobertas inseridas em um enredo de qualidade, com personagens cativantes e únicos à sua maneira. Pessoas que transformem os clichês adolescentes em coisas sensíveis e interessantes. Serão escolhidos inicialmente 10 autores para acompanhar o autor e organizador Jim Anotsu (Annabel & Sarah e A Morte é Legal) nessa viagem."



Ilustração: Maria Claudia Müller



Coletânea: Nós Estamos Aqui - histórias da juventude
Organizadores: Carol Christo e Jim Anotsu
Conteúdo: Histórias que transformem clichês e situações da adolescência em coisas sensíveis e interessantes.
Formato: Contos salvos em textos com formatações de estilos (itálicos e negritos já aplicados, caso o autor use-os, como citações, ênfases etc.), .RTF ou .DOC
Tamanho: No mínimo 3000 palavras, máximo 5000 palavras. Ou se preferir, mínimo 22 mil toques com espaços, máximo 30 mil toques
Recebimento: 30 de abril de 2013
Aonde enviar: editoradraco arroba gmail.com (cc jimanotsu arroba gmail.com e carolchristo8 arroba gmail.com com o assunto [JUVENTUDE - NOME DO AUTOR(A)]
Resultados: 1 de agosto de 2013
Lançamento: segundo semestre de 2013


Obrigado e até mais pelos peixes.



07/01/13

"Annabel & Sarah" na língua do Bill

Hoje eu nem tenho muitas coisas para dizer, só vim até aqui falar sobre a tradução de "Annabel & Sarah" - meu primeiro romance para o inglês. É uma coisa bem legal. Dá trabalho revisar muitas páginas e ver o que eu escrevi há tanto tempo transformado numa coisa diferente. 

É legal e tudo mais. Aí eu fico: Ah, então é assim que fica isso em outra língua  

Ou: Não foi exatamente isso o que eu escrevi, mas o sentido é esse, de boa. 

E: Meu Deus, mas o nome do personagem, mimimi! 

Bem, tudo está indo e acho que vou poder falar mais coisas depois. 

Ah, e sabe uma coisa que eu estou contente...acho que umas coisas vão mudar, mas são mudanças legais e acho que até os leitores antigos vão ficar curiosos. 

Eu sou o primeiro a admitir que esse romance não é o meu melhor em estilo - ou coisas esquisitas tipo "A Morte é Legal" -, mas ele foi o primeiro e acho que faz muito sentido que ele seja o primeiro a sair assim e tal, sabe? É uma coisa pela qual eu tenho bastante carinho e que reflete o meu eu de 17-18 anos de idade. Obrigado, pessoas e seres humanos. 

E aqui um trecho:

"Once upon a time there was a girl called Annabel Lee who went on the most incredible adventures in foggy and dark places that we prefer not to remember at bedtime. This is also the story of another girl called Sarah, who, just like her sister wandered through distant and scary places."


05/01/13

Loteando o paraíso

Olha só. Conversar com o meu amigo no Facebook me lembrou de uma história. 

Naqueles tempos antes da faculdade nós dois estávamos sempre sem dinheiro e gostávamos de fazer coisas completamente idiotas. Para começar com um exemplo, naquela época a gente estava lendo 1602, a HQ que Neil Gaiman fez para a Marvel que colocava os heróis no passado. Então, ainda animados com aquilo, tivemos a ideia genial de irritar a professora de História - da qual não gostávamos e cujas habilidades nunca haviam nos convencido. Bem, durante a aula nos levantamos as mãos e fizemos uma pergunta:

- A gente está com uma dúvida, professora. Gostaríamos de saber se o Sir Nicholas Fury apoiava Cromwell ou se ele era contra.

A Professora olhou para a gente com cara de eu-nem-sei-do-vocês-falam-mas-tenho-que-fingir e respondeu:

- Sir Nicholas Fury foi um grande defensor de Cromwell.

E daí em diante ela fez um grande discurso sobre as qualidades de Sir Nicholas Fury e coisas do tipo, enquanto eu e o meu amigo ríamos por dentro. Bem, no final a gente tirou o exemplar da revista da mochila e mostrou para ela quem era o verdadeiro Nick Fury. Eu até hoje não me importo muito com a nota vermelha que a gente ganhou naquele ano.
Tudo isso serviu apenas para ilustrar o tipo de pessoa que éramos naquela época: um amontoado de esperteza, sarcasmo e coisas nerds. E foram esses ingredientes que nos levaram ao nosso empreendimento mais rentável dentro da escola - além de vender cola nas aulas de literatura e inglês, sim, mercenários.

Naquele mesmo ano a gente começou a vender terrenos no céu. Bem, muita gente parecia interessada nesse tipo de coisa e a gente precisava de dinheiro para revistas, CDs e coisas do tipo. Levávamos o negócio tão a sério que até fizemos recibos datilografados numa velha máquina de escrever que eu tinha.

E o melhor:  As pessoas começaram a comprar - exceto o professor de matemática que queria uma chácara no inferno. Fizemos um dinheiro legal naquilo, vendendo metros, centímetros e acres celestiais. E no inferno também, já que lá havia churrasco, astros do rock e shows de strip-tease para todos os gêneros e formas - no panfleto de divulgação anunciávamos que o show de Cleópatra e Vlad Tepes não estava incluído no negócio. Nosso professor pagou alguns reais em seu pedaço do inferno.

Localização sempre foi um negócio importante e dependendo de onde você quisesse era mais caro. Pedaço do céu com vista pro purgatório era mais barato - era o equivalente de estar perto da favela divina, mas pedaço do inferno com vista pro purgatório era mais caro, sabe como é, subúrbio perto de um lugar mais tranquilo, para criar os seus diabinhos em paz. Morar ao lado de celebridade era o mais rentável do nosso negócio: Ghandi, Madre Teresa, Joana D'Arc sempre nos proporcionaram vendas estratosféricas.

Mas não se preocupe, a gente também pensava em pessoas de baixa renda: Havia o Jardim do Éder, um conjunto habitacional para quem não compraria no Éden. Claro que era um negócio com banheiro comunitário e sem eletricidade celestial, mas ei, eram apenas negócios.

Hoje eu me lembrei disso e pensei que no fim das contas eu não poderia ser outra coisa além de escritor, meu negócio sempre foi vender imaginação.

02/01/13

Livros para escritores - e curiosos


Jim: Eu sou o tipo de escritor que gosta muito de ver como as coisas funcionam, desmontar uma história e analisar a função de cada parte dela. Eu faço isso até mesmo com os seriados que assisto, por exemplo, eu assisto Doctor Who e sempre penso em Rose Tyler como audience surrogate ou quando ouço uma frase e penso em como ela está sendo usada para expor ou construir algo do plot. Nada é gratuito numa narrativa, claro que alguns autores fazem isso melhor do que outros – é por isso que Junot Diaz é um autor melhor do que Becca Fitzpatrick. Pensando nisso, eu decidi pensar em alguns livros que podem ser interessantes para aqueles interessados em entender como livros funcionam.

1 – Aspectos do Romance – E.M. Forster: Esse é até um clichê, mas clichês existem porque funcionam. Acho que este livrinho é o primeiro passo que alguém precisa para começar a pensar em literatura como construção. Não é difícil de achar e você vai se divertir bastante com a linguagem clara e delicada de Forter.

2 – Como funciona a ficção – James Wood: Este é um livro interessante que descasca a literatura, como uma cebola – o que me faz lembrar de Günter Grass e aquele livro lindo “Nas cascas da cebola”. Você pode nem sempre concordar com Wood, principalmente no que se refere a autores como Pynchon, Delillo e outros, mas é impossível negar que há ali alguém que realmente sabe do que está falando.

3 – Para ler como um escritor – Francine Prose: Esse livro já me agradou mais que Wood, mas ele trata de algo que me interessa profundamente: close reading. É sobre como ler um texto como objeto em si mesmo, meio que aquilo que um antigo professor meu disse: Não leia entre as linhas, há apenas um espaço em branco ali. O close reading é uma coisa legal para leitores comuns... e imprescindível para escritores, a habilidade de ver como uma frase feita de uma forma e não de outra muda tudo. É uma escola de leitura que foi perdendo um pouco de sua força depois do auge do New Criticism, mas continua importante.

4 – Negociando com os mortos – Margaret Atwood: Para explicar esse livro eu poderia usar um poema da própria Atwood e aplicar seu sentido aqui: You fit into me/ like a hook into an eye/ a fish hook, na open eye. A autora explora o fazer ficcional e lança luz sobre sua própria biografia como autora. É interessante por ser uma escritora moderna observando a literatura com um olhar feminino e de dentro dela.

5 – A Angústia da Influência – Harold Bloom: Um livro do qual eu tenho medo. Observando a literatura como uma arena onde escritores lutam contra seus precursores numa batalha infinita que não pode ser vencida por nenhum deles. É como o próprio Bloom diz em Onde Encontrar a Sabedoria: Você não vai vencer, no entanto não pode abandonar. É a obra mais importante dele e acho que sua contribuição para a literatura como um todo. É interessante para quem deseja entender melhor o papel daqueles que vieram antes sobre o seu trabalho. Para mim, alguém muito preocupado com conexões literárias e um caos que se expande, é muito legal.

6 – O Zen e a arte da escrita – Ray Bradbury: Este serve para inspirar. Bradbury escreve com vivacidade e dá dicas valiosas. É um livro muito interessante para quem está interessado em trabalhar num primeiro romance. Pequenos ensaios de diferentes épocas que formam um mosaico amplo e curioso. É um livro que me lembrou de On Writing do Stephen King, outro ótimo livro para escritores. 


Menções honrosas: O Super-Homem de massa – Umberto Eco, Crítica, Teoria e Literatura Infantil – Peter Hunt, On Writing – Stephen King, Como e Por que Ler – Harold Bloom, Seis propostas para o novo milênio – Ítalo Calvino, Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil – Roberto de Sousa Causo.